O Bicho Puxa-Saco

26/05/08

O bicho puxa-saco (Babadoris Ovílicus) é um animal que jamais vai entrar na lista dos que estão em extinção, não adianta destruir seu habitat. Adaptando-se a qualquer meio, demonstra uma capacidade de sobrevivência impressionante. Não existe espécie no planeta que consiga suportar mudanças bruscas no seu ambiente e manter-se com o mesmo número de indivíduos e, dependendo da mudança, ainda conseguem se multiplicar.

Suas técnicas de sobrevivência são interessantes, consistem em algumas atitudes simples, porém eficazes. É importante avisar que as informações a seguir são de conteúdo forte, é recomendada precaução às pessoas cardíacas, mulheres grávidas, crianças e gente xiliquenta.

  1. Identificação de Uma Espécie Superior - Quando adentra em seu novo ambiente, procura descobrir quais espécies pode garantir sua sobrevivência, desta forma se aproximar e inicia o que os biólogos chamam de simbiose1.  Normalmente fica a espreitar um espécime do bando que possua as seguintes características: decidem quem faz o que, distribuem o alimento e, principalmente, determina quem pode ficar no bando – A este indivíduo do bando vamos chamar de Chefe.
  2. Aproximação com o Chefe do Bando – Começa uma fase que é crucial para a sobrevivência: ganhar o apreço do Chefe. Pode parecer fácil, mas não é incomum o bicho puxa-saco encontrar outros de sua espécie já habitando ao redor o líder do bando, assim começa uma luta feroz pela atenção do cobiçado chefinho, este é o único ponto fraco do Babadoris.  Ainda sim, começa a fazer favores ao chefe, busca comida, leva recados, ajuda nas tarefas e, se necessário, apela para o sexo.
  3. Concordância Total – Após garantir sua estada no bando, começa o aperfeiçoamento de sua relação com o Chefe. Limita sua linguagem a duas frases básica: “Sim, concordo com o senhor” e  “Sua Idéia é excelente”. É claro que existem variações, mas a base é a mesma.
  4. Rir da Piada do Chefe – Esta prática é a mais nefasta, mas eficácia inquestionável, pois o chefe adora que o achem engraçado. A piada pode ser completamente sem graça, mas a risada será verdadeira (pelo menos deve parecer), com soluços e, se possível, até lágrimas de tanto rir.

Está não são as única dificuldades que o puxa-saco enfrenta em sua batalha pela vida. Existe uma que é a mais preocupante e traz grande tensão ao bicho: A demissão do Chefe. Quando ocorre esta troca, um Babadoris fica desnorteado, a possibilidade de ser retirado do bando é grande. Portanto deve agir com máxima precaução, pois os outros da sua espécie estão prontos para atacar o novo líder do bando.

Sua atitude deverá ser pensada, nada pode dar errado. Elabora uma despedida honrosa ao antigo chefe,  exalta todas as suas qualidades (não, um Babadoris nunca se lembra de qualquer defeito do chefe), aponta suas vitórias e ao fim de todo o discurso abusa da paciência de todos botando Canção da América de Milton Nascimento. Tudo isso por não saber se um dia pode re-encontrar o indivíduo que o mantivera vivo até aquele momento.

Quanto ao novo chefe, logo nos primeiros instantes fica lado dele o dia todo, não fala nada para que ele não perceba que o Babadoris, na verdade, é um elemento inútil para o bando. Redobra sua atenção ao líder, então aplica os mesmo princípios que garantiram a sua sobrevivência. O perigo é quando o novo manda-chuva traz o seu próprio puxa-saco, então não há muito mais o que fazer. O Antigo Babadoris do grupo está fadado a procurar outro lugar para sua sobrevivência. Não tem importância, eles são bons nisso, no final de tudo sempre vão existir sacos para serem puxados e ovos para serem babados.

 

1Simbiose é uma relação mutuamente vantajosa entre dois ou mais organismos vivos de espécies diferentes. No caso da relação puxa-saco e chefe, o puxa-saco garante sua sobrevivência e o chefe garante que seu saco fique limpo e lustrado com as constantes babadas e puxadas do Babadoris Ovílicus. Alguns biólogos questionam se, para o chefe, realmente existe algum benefício nessa relação.

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